Todos os anos, no início de novembro, as pessoas mudam o ritmo de seus afazeres para prestar reverência aos entes queridos falecidos. É tradição que remonta aos primórdios da humanidade, se perpetua até nossos dias e, certamente, prosseguirá pelas futuras gerações. A reverência aos mortos é algo que faz parte da vida humana.
De acordo com o Portal São Francisco, “o culto aos mortos é muito antigo e esteve presente em quase todas as religiões, principalmente nas mais antigas. Inicialmente era ligado aos cultos agrários e de fertilidade. Os mais antigos acreditavam que, como as sementes, os mortos eram enterrados com vistas à ressurreição.
Na prática da Igreja Católica, o Dia de Finados surgiu como um vínculo suplementar entre vivos e mortos, destinado a todos. O próprio mundo profano, em geral, também aderiu a essa prática. Os falecidos, sempre estiveram presentes nas celebrações da Igreja e no Memento dos mortos, no cânon da missa. Já no século I, os cristãos rezavam pelos falecidos: visitavam os túmulos dos mártires para rezar pelos que morreram. No século V, a Igreja dedicava um dia do ano para rezar por todos os mortos, pelos quais ninguém rezava e dos quais ninguém lembrava.
No século X, a Igreja Católica instituiu oficialmente o Dia de Finados. A partir do século XI, os papas Silvestre II (1009), João XVII (1009) e Leão IX (1015) passaram a obrigar a comunidade a dedicar um dia aos mortos. No século XIII, esse dia passou a ser comemorado em 2 de novembro, porque 1o de novembro é a Festa de Todos os Santos.
Com o passar do tempo, a comemoração ultrapassou seu aspecto exclusivamente religioso, para revelar uma feição emotiva: a saudade de quem perdeu entes queridos. Hoje, o Dia de Finados é um dos feriados mais universais. São cerca de mil anos de celebração pela fé na ressurreição.
As pessoas costumam celebrar os mortos levando flores aos túmulos e rezando por eles. Alguns preferem chamar a data de ‘Dia da Saudade’, retirando o peso do aspecto fúnebre e enfatizando as melhores lembranças daqueles que se foram.”
Conforme reflexões José Luiz Ames - doutor em Filosofia – “o Dia de Finados é o momento em que cada um se vê confrontado com o limite da existência humana. A consciência de que somos carentes de salvação, nos abre para a Transcendência. Não buscamos nossa salvação no vazio. Feito náufragos num rio, somente nos sentimos a salvo quando colocamos os pés na terra firme. A abertura para a Transcendência é na direção do Infinito. Somente um Absoluto é capaz de revelar-se a nós como suficientemente fundado para oferecer a salvação da qual somos carentes.
Reverenciar os mortos, no Dia de Finados, é um modo de fazer a experiência mais radical da existência humana. Nada nos toca mais profundamente do que a experiência do limite. Confrontados com a morte, tomamos consciência de nossa insuficiência. Carentes de salvação, nos abrimos para o Absoluto. O Dia de Finados pode transformar-se numa rica oportunidade de passarmos da superficialidade do cotidiano, onde tudo gira sem novidade, para a profundidade abissal de nosso interior e descobrirmos nossa radical carência de salvação. O Dia dos Mortos se tornará, então, no Dia dos Vivos: na descoberta do Outro Absoluto como único fundamento seguro para uma vida que não se extinguirá jamais.”