Motivos para celebrar a Independência
O Brasil festejou ontem, 7 de Setembro, o 189º aniversário de Independência, com muitas comemorações por todos os recantos do País. Importante celebrar data tão significativa, já que independência significa, também, maturidade, liberdade, com reflexos na autoestima nacional, sobretudo no amor à pátria.
Também é importante lembrar que a independência traz em si uma contradição, uma vez que, sobretudo nos tempos atuais, de globalização, vive-se um estado de interdependência, dadas as mútuas e múltiplas formas de relação e intercâmbio entre nações e grupamentos humanos. Pode-se dizer que nenhum país sobrevive sem participar do sistema financeiro internacional, sem estabelecer certas formas de dependência, sobretudo econômica e tecnológica. Há, nisso, um aspecto benéfico, pois as diferentes experiências partilhadas podem favorecer o desenvolvimento; podem motivar laços de aproximação, estreitar parcerias, enfim, promover uma espécie de solidariedade, via cooperação, internacional. E só uma nação independente se pode permitir avançar nesse estreitamento de relações.
Comemorações ufanistas, proclamando as potencialidades, riquezas, belezas, grandezas e conquistas da nação compõem um bonito e emocionante cenário, porém, no mais das vezes camuflam situações que deveriam ser melhor vistas, pensadas e trabalhadas para que todo o povo, todos os filhos da pátria amada Brasil, pudessem ter razões sobejas para celebrar a euforia da independência.
Neste caso, é de se perguntar: como celebrar a independência sob o medo e a tensão que a todos aflige ante o estado de insegurança e violência que vivemos? Como falar às crianças sobre independência, enquanto muitas delas não têm escolas e a educação vai mal das pernas porque verbas mil escoam pelos ralos da corrupção? Como falar de amor à pátria enquanto ainda vemos pessoas vivendo tormentos, ou morrendo, nas filas dos hospitais e serviços públicos de saúde, mesmo após tantos recursos arrecadados via impostos – suor e sangue do próprio povo – em prol da saúde? De que vale o ufanismo em nome das belezas naturais, potencialidades turísticas e econômicas, se turistas são mortos, a insegurança é cálice amargo de cada dia, a pedofilia avilta e dilacera a vida de nossas crianças, as drogas invertem ou entorpecem os sonhos de nossos jovens, as estradas e o trânsito continuam ceifadores de vidas qual campo de guerra...? Que independência vemos ante a corrupção deslavada que deixa excluídos tantos do processo de cidadania, porque grande parte de nossos representantes estão se “lixando” para o patrão povo? E muitas indagações nessa vertente poderiam ser postas diante desse altar das celebrações de independência. Ou não seria simplesmente fantástico comemorarmos um Brasil independente da corrupção?
Por outro lado, há, sim, coisas, motivos para comemorar. Sem falar do clima, do maior acervo de água doce do planeta, de nossas florestas, praias, chapadas, fauna e flora exuberantes. É preciso pensar no povo, na riqueza da nossa música, de nossa dança, de nosso folclore, de nossa comida. No nosso esporte até além do futebol. Pensar nas diferenças regionais que fazem do Brasil um mundo falando a mesma língua. Pensar no nosso senso de humor que faz dos piores limões a mais gostosa caipirinha, como lembra o consultor de empresas Luiz Marins.
É isto que precisamos comemorar: este povo, gente brasileira que, segundo pesquisas, tem como principais valores a família, o trabalho, o estudo e a religião, nesta ordem, demonstrando que, em meio aos contra-valores que vêm de cima, das altas esferas do governo, o povo, a Nação brasileira dá exemplos de preservação da ética e das instituições que dela são guardiãs.
Isso sim é independência! Em meio a tantas dificuldades, decepções e injustiças sofridas, ainda somos um povo capaz de alegria. Um povo que, apesar do governo que tem, ainda assim sabe dar seu ‘jeitinho’ de ser feliz.