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Fundador Oswaldo Zanello - ANO XXIV - N.º 1731.

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EDITORIAL (16/02/2012)

Carnaval e vida

O carnaval é, novamente, o foco das atenções nacionais. Milhões de pessoas se movimentam, num intenso ir e vir: uns à procura de folias e agitos, outros em busca de sossego e paz. As estradas, com isso, recebem um maior fluxo de veículos, exigindo esquemas especiais para garantir o bom trânsito. Sendo o carnaval uma festa em que muitos aproveitam para extravasar as tensões, algumas vezes até o limite da razão, viajar pode tornar-se uma aventura perigosa.
Todos os anos, o saldo das tragédias acaba estragando a alegria da festa de Momo para muita gente, culpada ou não. A lição é dura nos dois sentidos: o sofrimento é cálice indigesto, e somos cabeças duras em aprender com a experiência alheia. No rescaldo, há os tantos que jamais voltam, e outros que, passando dos limites, estragam a festa e a vida dos que, pacata e serenamente, procuram apenas diversão sadia.
A pergunta que intriga é: por que não aprendemos com as dolorosas experiências alheias? Ou, por que teimamos e achar que o trágico só acontece com os outros? A impressão que se tem é que, às vezes, nosso instinto de autopreservação também se torna folião e sai por aí atrás do Bloco dos Incon-sequentes e retorna somente na penitência das Cinzas.
O governo, ano após ano, estabelece projetos, aumenta o policiamento, minorando o problema da violência no trânsito. No entanto, os excessos e abusos carnavalescos que geram tragédias, são como a dengue. Não basta o esforço das autoridades; é preciso a participação da população. Da mesma forma, não basta a ação da polícia, se as pessoas não têm cuidados consigo mesmas e com terceiros. Trata-se de uma relação de alteridade: o cuidado deve ir além do âmbito egocentrista, pois a ação irresponsável de um não pode prejudicar o vizinho. Como diz Leonardo Boff, fazemos todos parte de um ecossistema comum, "uma única entidade". Por isso, urge que nos preocupemos uns com os outros como condição de vida. Caso contrário, voltamos à dengue: vale pouco que um combata os focos em seu quintal se o vizinho não faz o mesmo - os pernilongos tornam-se comuns a todos.
O respeito a si próprio, às pessoas e ao ambiente é um bom norteador de condutas e vale em qualquer local e circunstância. Há pessoas que parecem viver em constante ânsia para aproveitar o tempo e usufruir de tudo, ao máximo, como se não existissem os outros, e produzem pressas desnecessárias, barulhos estressantes, bebedeiras desmesuradas e até orgias românicas como se o mundo, o feriado, a alegria fossem somente para elas. Então temos gente morrendo no trânsito devido a altas velocidades e imprudências; mortes por brigas ou disputas motivadas por provocações mínimas e intolerâncias zero. E no final, para muita gente boa, muita família ordeira, para muita gente que nada provocou, sobra a conta do sangue, da morte, tristeza, no lugar da cerveja amiga, da vida e da alegria.
Vamos ao carnaval, à festa, à alegria, mas cuidemo-nos como se uma grande família fôssemos. Na verdade, é o que somos. Apenas, e muitas vezes, não nos apercebemos disso ou a isso fazemos vista grossa por nos ser mais cômodo o alheamento. Cuidemo-nos, pois, para que não sobrem apenas as cinzas da fogueira de vaidades das festas mo-mescas.

 


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